
Fotografia de Beatriz Morán
MULHER DIANTE DO ESPELHO
Pupilas de cristal, olhos de assombro,
ela me olha, ela está olhando
os resíduos de todas as batalhas,
os despojos de todos os naufrágios.
Vê os sulcos lavrados no meu rosto,
talhados com adaga e com arado;
quanto de servidão foi necessária
para gravar as marcas do chicote;
que árduos e inclementes os invernos
tornaram meus cabelos prateados.
Desde o cristal do espelho me contempla,
e me pergunta, está me perguntando
onde estará a que um dia foi menina
e às vezes aos meus olhos se assomava.
Terá caído –pensa- nas contendas
em que se confrontou com deus e o diabo.
Desde o cristal me olha, inquieta e triste,
seus olhos nos meus olhos espelhados,
e ao não se descobrir no seu revés
desvia o rosto e apaga a minha imagem.
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Pablo Picasso
HORIZONTES
Espera-me no molhe de um porto milenário
pois trago no regaço dois séculos de cismas
que percorri aos tropeços, remando um ideário
com remos de sofismas.
Pesada de horizontes se pôs minha fortuna
e algum desígnio injusto fez meu fado tristonho;
e no entanto estarei, na época oportuna
onde nasce o teu sonho.

Pablo Picasso
ÁNGELUS
São seis horas da tarde.
Uma mudez de lápide
se tomba com fragor sobre os meus versos
enquanto à flor da pele, lume e almíscar,
se inauguram pecados
antecipadamente redimidos.
Do claustro dos meus lábios
fugiram as palavras que eram minhas:
fiquei sem os rosários
que costumava usar para rezar-me.
Abraçada aos meus ecos primordiais
quero dizer a música
do choro de um recém nascido,
o trovão que alucine a voz dos pássaros
e um gemido de amante
que cale a voz enorme do silêncio.
Às seis horas da tarde
no pórtico de todas as mordaças
ressoa um Ángelus cantado por demônios.

Pablo Picasso
AO PÉ DO CALENDARIO
Volto-me para trás e contemplo, assombrada,
esse largo trajeto que recorri aos tropeços.
É tão longa e penosa a soma dos meus passos,
foi tão espesso o pó de cada encruzilhada.
Da mochila rasgada gotejaram as horas
e leve se tornou a carga de utopias,
perdidas as certezas, extraviados os credos,
olho com desconsolo minhas pobres pegadas.
Observam-me os que cruzam comigo nesta senda,
surpreendidos do mísero cariz dos meus andrajos,
nos cabelos carrego serpentes entrançadas
nas pontas dos meus dedos há garras e não unhas.
Ninguém busca os meus olhos onde moram os medos
nem procura o meu ombro onde não há refúgio,
sabem que não me resta mais que o lenho que arrasto
e o punhal escondido no viés dos meus seios.
Termina aqui o caminho. Aqui acaba a viagem.
Sento-me nesta pedra ao pé do calendário,
a alma ao rés do chão, esperando esse encontro
que combinei um dia com um velho demônio.

Pablo Picasso
ESTE DOMINGO
Este domingo sabe a morte antiga.
O vento se perdeu nalgum atalho,
esta tarde tem cara de inimiga
e me acena com gestos de espantalho.
Este domingo cheira a bruxaria.
No meu sótão mental mora um demônio
com síndrome servil de idolatria
que se alimenta de oração e amônio.
Salto na amarelinha dos pesares,
mastigando pedaços de vingança
enquanto a minha sede pede mares
e se afoga nuns tragos de esperança.

Pablo Picasso
ESPERO UMA PALAVRA
Espero uma palavra à medida
das incomensuráveis desventuras;
lógica, consequente e natural
como o braço e a mão.
Espero uma palavra, acendo luzes,
me penso vento sul, frequento esquinas,
vagueio nos meus próprios descaminhos
e para não pensar
na falta que me fazes
piso descalça sobre vidros rotos.
Espero uma palavra
que seja tua e caiba
nesta ferida.

Pablo Picasso
ESTÁ TUDO BEM
A luz cintila sobre o muro branco
onde rosas morenas se espreguiçam.
O ar é pouco mais que uma intuição
que resbala na pele e cheira a pinhos.
A manhã está em paz. Vai tudo bem.
E entretanto, tu, tão desvalida,
tão pálida, tão suja de tormentas,
como se um vendaval feroz houvesse
demolido as ameias do teu patio.
Há musgo úmido no teu cabelo,
nas tuas mãos se enredam folhas tristes
e peito adentro uiva uma matilha
olfateando os pontos cardeais
para cheirar colheitas incendiadas.
Trazes as unhas sujas de carvão
tal foi a sanha ao escavar a noite.
Nas tuas costas tens manchas de líquen
por haver-te deitado em tantas tumbas.
Acalma-te. Só há cheiro de pinhos,
alvorada serena, vida mansa,
os pintassilgos cantam nas ramagens.
Não há tornados destroçando bosques
nem incêndios na seara dos exilios.
A manhã está em paz consigo mesma.
Calma, Tania Alegria. Tudo bem.

Pablo Picasso
FORJAR SILENCIOS
Sobreviver -disso às vezes se fala-
mais além das estritas contingencias,
despida e sem pretérito,
desessencial.
Sem as amarras do esqueleto pobre
e da não transcendente
estratégia de ser.
Forjar silencios mais além da boca
onde todos os ecos se sepultam.
Sobreviver - disso às vezes se fala -
em absoluto estado de inocência,
sem punição.
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