No ano 711 se produziu na Península Ibérica a primeira invasão dos muçulmanos procedentes da África do Norte. Nascia a cultura árabe-andaluza que durante os seis séculos seguintes desenvolveu uma civilização marcada pelo progresso econômico e pelo esplendor cultural nas terras denominadas Al-Ándaluz e Al-Gharb. Durante essa época coexistiram pacificamente as comunidades islâmicas, cristãs e judias.
Em 1492 terminou o processo da reconquista da Espanha pelos Reis Católicos Fernando e Isabel e com ele a tolerância religiosa e cultural até então vigente.
Em 1502 os Reis Católicos promulgaram uma “pragmática de conversão forçada” que estabelecia a conversão compulsiva dos muçulmanos à religião católica. Chamaram-se mouriscos aos espanhóis muçulmanos forçados a batizar-se em conseqüência dessa lei. Os muçulmanos que não aceitaram a conversão foram perseguidos e expulsos do território espanhol. Um século mais tarde, em 1609 também foram expulsos os mouriscos.
Os romances que compõem este conjunto de poemas contam a historia dos amores entre uma moura
ámma, de uma família de pequenos agricultores, forçada a converter-se à religião cristã, e um mouro
jássa, de nobre família, que não se submeteu à Pragmática e se tornou foragido. A época é o início do século XVI. O local a cidade de Granada, capital do reino muçulmano durante a dinastia dos Nazarís.
O enredo está organizado em quatro períodos:
- a época anterior à promulgação da Pragmática (poemas I, II e III)
- o período seguinte à Pragmática, no qual o mouro se recusa a submeter-se à conversão compulsiva e a jovem é forçada a converter-se ao cristianismo (poemas IV e V)
- a fase em que o mouro se encontra foragido nos montes da Serra Nevada e vem a Granada para encontrar-se com a mourisca (poemas VI, VII e VIII)
- final (poemas IX e X)
Nota: “Romance” é o tipo não estrófico contemplado em versificação castelhana, cuja característica é a composição em versos octosílabos (que em versificação portuguesa levam o nome de heptassílabos), com rima assonante nos versos pares, ficando os versos impares soltos. No caso deste Romance foi empregada a rima assonante em e-o em todos os versos pares.___________________________________
I - A SAGA
Granada, 1502

Esta é a saga de Sahoud,
nobre
jássa sarraceno
e a jovem
ámma Marién
gentil mourisca do povo.
Era o reino de Granada.
Eram séculos pretéritos.
-Ai, mouro dos meus encantos!
-Ai, moura dos meus desvelos!
Em amores se enredavam,
paixões da alma e do peito,
enquanto que a sorte avara
com os fios dos seus enredos
os seus destinos tramava
por intrincados trajetos.
As botas cristãs pisaram
de La Alhambra os arabescos.
Mouros que sereis mouriscos;
mouriscos, sois estrangeiros;
pois não haverá no Reino
outra lei nem outro credo:
Há uma Espanha na terra
e só um Deus no firmamento.
-Moura, me tornei mourisca.
-Mouro nasci e permaneço.
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Jássa: aristocrata
Ámma: povo
La Alhambra: palácio dos reis nazarís em Granada___________________________________
II - A ROSA

Meus lábios que não te chamam
são selados em segredo,
não posso dizer teu nome
pois a lua está em ensejo,
seus olhos de prata em ânsias
por ver teu corpo, moreno.
Com uma rosa nos dentes,
no seu talo te mordendo.
Meu corpo que te reclama
na noite estende o seu leito
e te esperam meus fascínios
nos velhos umbrais do tempo,
ansiando pelo teu corpo
que sabe a menta e a deserto.
Com uma rosa na orelha
te escuto no som do vento.
Quando a lua me descubra
a enredar-te em meus bruxedos
e pôr-me em pontas de pés
para beijar teus cabelos...
Ai, que se ponha encarnada!
Ai, que morra de desejo!
Com uma rosa no ventre
minhas cadeiras maneio.
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III - A SOMBRA

Minha sombra beija a tua
com boca de vinho espesso
enquanto esperam meus lábios
a mordida do teu beijo:
que deixe um travo de sangue
no caudal do meu desvelo.
Nas pregas da tua sombra
estão passeando os meus dedos.
Minha sombra no teu ombro
traça as linhas de um esteiro
para que não te extravies
quando busques o meu peito.
Te esperam meus impudores
pelas esquinas do vento.
Nas mãos ágeis da tua sombra
estão pulsando os meus seios.
Minha sombra deixa marcas
com sua língua de veneno
do teu pescoço ao teu ventre
num rio de gozo e segredo.
No mar da minha saliva
singra o teu corpo, moreno.
Nas ondas da tua sombra
estão dormindo os meus medos.
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IV – A TAÇA

Me enfeitei com madressilvas
para esperar teu afeto,
modelei minha cintura
ao círculo dos teus dedos.
Enquanto isso sonhava
com tua pele de pêssego.
Me trazes gozos guardados
entre os gemidos do vento.
Húmida de inquietas pressas
minha boca não tem pejo,
língua de ave embriagada
busca em voraz esbracejo
aonde caibam os meus lábios
nos espaços do teu peito.
A noite, lençol de seda,
onde se deita o silêncio.
Tuas mãos são peregrinos
que recorrem meus trajetos;
com dentes de leão faminto
minha carne vais mordendo
e o manancial do teu sêmen
enche a taça do desejo.
Com a vassoura da aurora
as nuvens varrem o tempo.
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V - A PRAGMÁTICA

Moura, me tornei mourisca,
enteada de um deus alheio
e me dizem que é pecado
querer tanto como quero
a quem sustenta o Crescente
com punhos de sarraceno.
Me abraço nas oliveiras
em teus braços estremeço.
Só o teu corpo é sagrado
no igreja dos meus lamentos;
a oração a minha língua
ardendo em mel e veneno
te reza de cima abaixo,
te queima como um inferno.
Colhendo cachos de uvas
nos teus sonhos eu desperto.
Os jasmins na minha horta
se balançam num maneio
quando o teu potro de ânsias
cavalga sobre os meus ermos
e os gemidos do meu sangue
quebram a face do espelho.
O Genil nasce em teus olhos
e nesse teu rio navego.
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Genil: rio de Granada___________________________________
VI - O DESTINO

Levava meu desconsolo
a caminho dos vinhedos
quando ouvi o som de música
na voz de algum cancioneiro.
Quem cantava era um cigano
uma soleá de lamentos.
Uma cortina de ocasos
escondia o firmamento.
Diz-me, cigano de sangue,
o destino dos meus medos,
se na palma do meu mouro
e nas páginas do tempo
haverão escrito os fados
o caminho do desterro.
A noite estendeu seu manto
de cetim mágico e negro.
Diz-me que em nossa fortuna
a noite do aventureiro
não matará o esplendor
do Crescente sarraceno
e que o sol de Andaluzia
luzirá com brilho intenso.
Nas margens verdes do Darro
só se escutavam silêncios.
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Soleá: canto andaluz
Darro: rio de Granada___________________________________
VII - O SONHO

Da minha túnica branca
a noite fez um veleiro
destapando os meus quadris
revelando os meus segredos;
me despojou de vestidos
o perfume do limoeiro.
Resvalavam como peixes
teus olhos sobre os meus seios.
-
Hhabibi a’oyonak maa’aya.
(escutava num arpejo
tua voz nos meus ouvidos).
Não me tocavam teus dedos
e ainda assim me estremecia
ao sopro do teu alento.
Deslizava no meu corpo
o caudal do teu desejo.
-
Habibi, a’oyonak kifayaMurmuravas em segredo
Eu te respondia em sonhos:
-
Habibati és meu eleito.
A noite se desvelava
repetindo os nossos ecos.
Um milagre se escondia
no meu pátio de silêncios.
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Habibi: meu amor (o homem referindo-se à mulher)
habibi a’oyonak maa’aya: meus olhos estão contigo
habibi, a’oyonak kifaya: meu amor, isto me basta
habibati: meu amor (a mulher referindo-se ao homem)___________________________________
VII – O UMBRAL

Não traspasses esse umbral:
deste lado está o inferno
onde te danço descalça
sobre a ânsia dos meus lenhos,
em chamas vivas que lambem
e abrasam quando te penso.
Da tua mão até a minha
a noite estende o seu lenço.
Não atravesses os vidros
porque sangrarão meus medos
se as tuas mãos feiticeiras
destroçam meus amuletos.
Desliza em mim teu olhar
desde o saguão do desterro.
Da tua boca até a minha
um pássaro voou por perto.
Modela-me nesse instante
quando em teu olhar me vejo
para que more em teus olhos
assim como encantamento,
como a asa de uma pomba
presa nas cordas do tempo.
Entre o teu rio e os meus sulcos
dois abismos e um espelho.
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VIII – O PATIO

Furtiva venho ao teu pátio
na ausência do cavaleiro
que vai pelo Mulhacén
como um paria bandoleiro
por não ceder suas crenças
a um rei e a um deus estrangeiros.
Posso sentir teu aroma
de tigre acossado e fero.
Para não deixar pegadas
no teu pátio de arabescos
venho descalça e pequena
enroupada em meus segredos
e até os gerânios se assustam
quando neles te rastreio.
Estão cheirando ao teu suor
as sementes do limoeiro.
Se me encontras semearás
com o teu brio sarraceno
no meu ventre um filho mouro
que me matará de medo
quando seguir os teus passos
de nômade y de guerreiro.
Ai, se não fosse mourisca!
Ai, se te quisesse menos!
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Mulhacén: montanha da Sierra Nevada, Granada___________________________________
IX - A FUGA PARA O MAGREB

Serão,
habibati, sempre,
teus braços meu barlavento;
teus passos minhas pegadas
seguirão até ao desterro;
teu peito será meu lar
e tua sombra o meu teto.
Adeus lua de Albaicín
que me invejavas os zelos.
Com a esperança no alforje
nosso fado seguiremos,
minha mão atada à tua,
teu filho em meu ventre levo
rumo ao
Maghrib Al Aqsápátria dos nossos eméritos.
Adeus meu pátio andaluz
que cheira a flor de limoeiro.
Aonde sopra o
Siroccohaverão oásis amenos,
as tâmaras serão doces
com o sabor agareno
dos teus lábios de senhor
Quando dizes “sou teu servo”.
Parto chorando, Granada,
sei que nunca mais te vejo.
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Albaicín: bairro de Granada
Mahgrib Al Aqsá: deserto do Magreb
Sirocco: vento do deserto africano___________________________________
Ilustrações: óleos sobre tela, de Henri Matisse
Foto de Granada desde o Albaicín, com vista do Palácio da Alhambra e a Sierra Nevada