domingo, 24 de maio de 2009

OFICIANDO O RITO DE ENREDAR AS HORAS

Óleo sobre lienzo de Iván Fernández-Dávila



EVANGELHO DE EXORCISMOS

Chegas com o carisma, o verbo, o signo
e o gesto amável de amputar as sombras.
Impenitente emerges de outro abismo,
desde um lugar sem nome em minha história.

Te esperava no pórtico de gritos
onde se desordenam as demoras
cifrando um evangelho de exorcismos
no meu ritual secreto de devota.

Chegas como quem não, como quem passa
e ao azar se detém e por acaso
se vê e se reconhece em meus espelhos.

Faz séculos que eu teço uma ramada
para enlear-te as horas nos meus braços
e enredar tua voz nos meus silêncios.


ESPERANDO O AMOR SEM CRER QUE EXISTA

Parto para a paisagem das desertas
planícies que há no mapa do meu peito,
onde há um pátio com aroma a cedros
e silêncios se erguem como ameias.

Ali moram meus anjos de tristeza,
os diabos que percorrem meus segredos
e, oculta do outro lado dos espelhos,
a menina que fala com as feras.

Estarei revestida de invisível,
sem forma ou gravidade, como nuvem,
utópica, qual eixo de uma abcissa,

entrançando hipotéticas elipses
com este ódio fiel e este costume
de esperar pelo amor sem crer que exista.


ENREDANDO AS HORAS

A exagerada cor das buganvílias desordena esta tarde.
O sol cospe estilhaços entre as folhas
que cobrem a aridez das minhas pálpebras.

Desterrada de mim, dos meus rituais,
deste costume ocioso de enredar as horas,
busco ao redor as teias das aranhas
aonde emaranhar esta clausura.

Desterrada de ti, dos teus conjuros,
engendro versos que ardem como urtigas,
rasgo palavras em retalhos ínfimos
somente pelo gosto do remendo
nas erráticas telas dessas sombras
tombadas do meu ventre.

Incruenta e mineral
adorno com equívocos o gesto
de atravessar umbrais com os olhos vendados
esperando encontrar-te em outro abismo.


MANDALA

De um só a outro só dizes ninguém,
para lá do clamor e do impropério,
murmuras solidão com voz de brisa,
tal como as folhas falam com as árvores.

De pé, na contraluz dos teus umbrais,
chamas com letras do teu nome o tempo
e arrebatas a essência do poema
ao pó, à cal e às farpas dos arames.

De pronto o meu silêncio é habitado
por um homem no viés de uma memória
que compreende a chuva e o som das horas

e vem com a ousadia do seu braço
traçar na minha pele uma mandala
com os secretos círculos da água.


COMIGO LEVO ABISMOS

Te seguirei. Comigo levo abismos,
meus mortos com olhares de porquê ,
minhas noites com luas de papel,
e um punhado de estrelas de alumínio.

Levarei no baú dos meus exílios,
onde guardo as desordens ao revés,
os diabos que vigiam minha Sé,
os anjos que recorrem meus baldios.

Te seguirei aos páramos das horas
na diagonal dos pontos cardeais
onde albergam seus cânticos as noites.

Aonde algum poema expulse as sombras
meu coração de ave ali estará
esvoaçando ao vento do teu nome.


O SEGREDO DAS HORAS

Nestas horas tão minhas –que parecem alheias–
quando busco o meu rosto na face do momento,
teu nome se repete ao ritmo de um alento
e percorre o abismo do meu sangue nas veias.

Te chamo e quase não, é um murmúrio a meias,
e quase não, não mais que um exíguo fragmento
que navega oceanos, levado pelo vento,
buscando as tuas margens ao rés de outras areias.

Digo o teu nome ausente em fórmula cifrada
nas maneiras que eu sei de acomodar demoras
no relógio que lacra o compasso do nada.

Te chamo desde um páramo com carência de auroras
assim como quem reza, numa prece calada,
como quem conta ao tempo o segredo das horas.


MEMORIAL DA ESPERA

Chegou a chuva com seus dedos de água
tamborilando a face dos cristais
e escreveu os teus signos nas janelas.

E veio um árduo frio pelas estradas
onde andam em geral os desamores,
meteu-se pelo viés dos meus umbrais
e me disse o teu nome por enigmas.

Eu me apressei em enfeitar a vida
com as coisas que luzem as esperas:
enchi vasos com versos e impudores
e no teto preguei clarões de lua.
Para que não te aflijas com meus lutos
guardei meus mortos em caladas lápides,
para que não te doam meus pesares
no jardim enterrei os infortúnios.

Para os teus lábios de promessa e beijo
minha boca sequiosa, envenenada,
engendrou na inquietude das demoras
um memorial de infernos e poemas.


RITOS

Olho a paisagem
tão minha desde sempre que até dói,
aonde moram as minhas histórias.

Enquanto enredo as horas esperando
que a vida arremate os seus deseños,
meu rio recorta os bordes das colinas
buscando latitudes onde achar-te
ao sul desta varanda e dos meus olhos.

Aqui inauguro o rito de querer-te,
iluminando esquinas onde mora a tua ausência
e se faz verbo o ruido da distância.

Se por ti sou acácia e estendo ramos
meus braços destinados a dar sombra
maduram vocação de trepadeira
para oficiar o culto de abraçar-te
como hera paciente e obstinada.

sábado, 9 de maio de 2009

NAVEGANDO ESPELHOS


SUL

Tenho um baú cheio de Sul no sótão
e um código cifrado para abrir a tampa.
Deve-se dizer talho sem mencionar o aspecto da ferida,
deve-se dizer trem sem referir as gares,
e outras palavras, como pão e mãe,
palavras com a força de uma proa de barco
rompendo as ondas no oceano aberto.

Há que dizer exílio.

Tenho restos de Sul como migalhas
no prato de alumínio da infância.
Há demasiado verde na memória,
afetos de joelhos
nas escuras cavernas do passado,
verdades como punhos que mutilam
cada proposição do silogismo
em que se ampara a armação da carne.

Alvoroça um escândalo de trópicos
essa suspeita paz dos meus subúrbios
e é por isso que os cães do esquecimento rastreiam margens
farejando nos trilhos mar a dentro
o sangue dos meus passos
sempre que parto com o exílio às costas.


ARAUTOS

Na garoa se adivinham sombras
que com as mãos molhadas
me indicam o caminho para os bosques
onde murmuram duendes
com vozes de madeira.

Sei que desde o umbral dos desconsolos
és tu quem chama.

E no entanto me sabe a rebeldia este gosto de sándalo na boca.
Soa a passos de coxo esse rumor das asas do meu anjo subversivo.
Tenho umas ganas loucas de sujar teus olhos
com os cravos vermelhos macerados que um dia destinei ao meu sepulcro.

De modo que não venham os arautos a anunciar-te com líricos pregões.

No caso de que venha a arrepender-me dos meus irreprimíveis arrebatos
venho deixar na tua porta um beijo
e um poema canalha.


DEZEMBRO

Veio dezembro em forma de revólver
assassinando o tempo do resgate.
Eu me encolhia toda, nos armários,
para esquivar os tiros,
como uma diana
que se esconde fugindo do seu alvo.

Chorava às vezes, com o rosto oculto,
como choram os fortes: escondidos,
com os olhos tão secos como sóis
e na boca um trejeito
em tudo semelhante a um sorriso.

E dezembro passou por meus umbrais
deixando órfãos
os velhos filhos desta longa historia.

E nunca, nunca mais, a vida foi a mesma.






Foto de Lena Sergeeva



UM PUNHADO DE ARGILA

Às vezes te despertas e é como se morresses
de espanto e de estranheza
ao vislumbrar o dia, discernir seus escolhos,
avaliar quantos passos te restam para a noite.
Árido chão espera a marca dos teus dedos,
não tens mais que um punhado de argila para erguer
a colossal muralha que guarda os teus silêncios.

Tão só que a tua sombra
não cruzará contigo o grés dos pórticos,
tão muda que as palavras
não acharão o rumo que leva aos teus ouvidos,
construirás, obstinada, as cercas do teu pátio.

E nada chegará incólume ao crepúsculo.

Virá a lua clara iluminar despojos
enquanto dos teus olhos os pássaros emigram.
Amanhã voltarás, sem outros argumentos
além das tuas mãos e um punhado de argila,
para erigir os muros que encerram teus silêncios.



COMO UM DOMINGO

E no entanto vens, eu sei que vens,
nas asas de um ciclone a barlavento,
tua barca de pombas e de versos
alcançará o abrigo do meu porto.

Já na praça, nos patios e nas fontes,
andorinhas em bando alçam o vôo
e nas varandas altas se ouve o vento
repetindo o teu nome nas esquinas.

Te anunciam os sinos a rebate
e em todos os suburbios do povoado
se sabe que virás como um domingo.

Se sabe que virás porque o feitiço
da lua de atalaia nas ameias
inaugura o pressagio dos teus signos.


TECENDO LUZES

Transcorria dezembro com seus palios
para não embaçar a insensatez do frio
enquanto a chuva
esfaqueava o vento nas esquinas.

Lisboa de ouro e prata parecia
um castelo assediado por crepúsculos,
com as torres de névoa,
as ameias de água,
e os seus sete horizontes escondidos
na bruma espectral das suas colinas.

Por não saber mais formas de querer-te
tecendo luzes eu me atarefava
para enfeitar as asas dos pardais
que emigravam em busca do teu peito.


AO NORTE DOS ESPELHOS

Somos tão só ampolas de palavras
que tentam emergir desde os abismos
e resgatar um argumento à alma
para explicar a causa de estar vivos.

Uma esperança arteira nos amarra
um junto ao outro, ambos convencidos
de que o que encontre do portão a aldraba
a ambos abrirá fado e caminho.

E por isso abrigamos nossas mágoas
em algum patio ao norte dos espelhos
e cruzamos as portas de mãos dadas

sem mais empenho que fingir, acaso,
que nos dói menos se nos dói em versos,
sem mais consôlo que querernos tanto.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

DENSOS NAUFRÁGIOS E OUTROS EXTRAVIOS


















Foto de Toni Frissell

PARA FALAR DA MORTE

Para falar de morte há que calar os pássaros da alma.
Com pés descalços sobre velhos mapas, os lábios em pretérito;
constatar que o amor foi uma gare e a fortuna efémera hospedagem;
o fardo mais pesado cada dia e o grito cada dia mais calado.

Há que calcorrear as ruas já pisadas,
percorridas a cegas, esquivando acidentes,
mostrando nas fronteiras de auroras sucessivas
a certidão do medo abrigado nas pálpebras.

Para falar da morte há que aceitar abismos:
morrer é tão somente um verbo triste
inesperadamente conjugado.





















SINAIS

Me alimentan los signos
de su ofrenda de fuego
(Alonso de Molina)

Dos meus sinais te alimentas
e nas aguas do meu corpo
em vendaval pele acima
navegam teus pensamentos
guiados por bússolas rotas
em direcção ao meu leito.

Um conjuro de suspiros
com melodia de remos
te chama desde esta margem
para que aches o trajecto
dos teus braços navegantes
até ao viés dos meus segredos.

Para atrair teu naufrágio
até à margem dos meus medos
meus pés inventam sinais
que traçam no pó da estrada
a senda das tuas mãos
até ao cais dos meus seios.





















NÃO HÁ PROBLEMA

A luz cintila sobre o muro branco aonde se espreguiçam as roseiras.
O ar é pouco mais que uma intuição que resvala na pele e cheira a pinhos.
A manhã está em paz. Não há problema.

E entretanto, tu, tão desvalida, tão pálida, tão suja de tormentas,
como se um vendaval feroz houvesse demolido as ameias do teu patio.
Há fungos húmidos no teu cabello;
nas tuas mãos se enredam folhas mortas;
fumo nos olhos, musgo entre os dentes,
e peito adentro uiva uma matilha
olfateando os pontos cardeais para cheirar colheitas incendiadas.
Trazes as unhas sujas de carvão tal foi a sanha em escavar a noite.
Tens as costas manchadas de líquen por estares deitada em tantas tumbas.

Tranquiliza-te. Só existe o cheiro de pinhos,
alvorada serena, brisa suave, os pardais despertando nas ramagens.

Não há tornados destroçando os bosques.
Não há incendio na seara dos exilios.
A manhã está em paz consigo mesma.
Acalma-te, Marién, não há problema.





















FAZ-ME FALTA UM DEMÓNIO

Faz-me falta um demónio,
ao menos um demonio,
que se acomode no sótão mental
para expulsar dos versos as metáforas,
dar um jeito travesso na ternura
e um som de sacrilegio nas paixões.

Um demónio servil
para pintar de carmim os labios descorados
dos múltiplos rostos
que a verdade costuma apresentar-nos;
e que varra do chão
os vidros rotos
em que piso descalça
na minha travessia do deserto.






















EIS-ME AQUI DESPOJADA

Eis-me aqui despojada.
Venho da selva, venho da espessura,
enredada nas ramas dos assombros;
trago a pele mordida
por sucessivas feras
e no viés dos meus lábios
pretéritas maçãs já sem veneno.

Aqui me tens escrava. Aqui te sabes dono.
Talvez ainda encontres retalhos sem estigmas,
pedaços à medida da marca dos teus dentes,
espaços para as úlceras que abrirão tuas garras
na nudez do meu ego.




















CHUVA

A chuva se suicida nas janelas.
Lança-se contra os vidros em reiterados golpes.
Há um som de gotas doentes gemendo nas vidraças
e um murmúrio de luto que repete o teu nome.

Calada como um morto, triste como um inverno,
olho as paredes sujas de pó de má memória
e as sombras se acomodam nos sofás dos meus braços
como se regressassem de uma terra distante
para ficar morando no sótão do meu peito.

Nas janelas a tarde se suicida
martelando o teu nome nas vidraças.





















AMOR DE PUNHOS CERRADOS

Olha, amor, as minhas mãos
macerando as rosas vivas.
O ar segrega veneno
de flores estranguladas.
Espinhos de raiva e pena
abrem-me chagas na pele.

O sangue tinge o verão
de raiva e ressentimento
nas minhas mãos enlutadas:
último Agosto do ano
de todas as inocências
e o primeiro do depois.

Nas roseiras dos meus júbilos
eu me enfeitava de aromas,
entre as folhas e os espinhos
embriagada com esperas.
Eu te amava. Era verão.
Tudo o resto era infortúnio.

Olha as minhas mãos rasgadas.
Entre os meus dedos escorre
carmim de rosa e ferida.
Verão de flor e de fúria.
Memória de seiva e sangue.
Amor de punhos cerrados.




















FARRAPOS DO TEMPO

Pelas noites visitas meus pudores
invadindo o revés do pensamento.
A aurora nos surpreende e te dissipas
pendurado na noite sem espelhos.
Desperta, busco a chaga que me dói
e encontro esse punhal aqui no peito.

Arrasto nas planícies dos relógios
o rosto cotidiano que baldeio
com a água salgada dos meus olhos
até a escuridão onde te vejo,
ali se escondem as desgraças doces
e se acomodam farrapos do tempo.

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Ilustrações: óleos sobre tela, de Amedeo Modigliani

MULHER DIANTE DO ESPELHO













Foto de Beatriz Morán


SOU LIMOEIRO NOS TEMPOS

Esta noite eu tento conceber
um verso que flutue.

Em vão eu busco
algo impalpável ou ao menos líquido
que voe ou escorregue entre os meus dedos.

Sou tão feita de pernas e de braços,
tantas pestanas, tanta ideia fixa,
e, além disso, os espelhos assonantam
com o aroma da flores do limoeiro.

Como construir com a palavra etérea
-ainda que insana-
um verso que não cante
teu corpo, meus cabelos, nossos dedos?

Sou limoeiro nos tempos.




















HORIZONTES

Espera-me no molhe de um porto milenário
pois trago no regaço dois séculos de cismas
que percorri aos tropeços, remando um ideário
com remos de sofismas.

Pesada de horizontes se pôs minha fortuna
e algum desígnio injusto fez meu fado tristonho;
e no entanto estarei, na época oportuna
onde nasce o teu sonho.














ÁNGELUS

São seis da tarde.
uma mudez de lápide
se tomba com fragor sobre os meus versos
enquanto à flor da pele, lume e almíscar,
se inauguram pecados
antecipadamente redimidos.

Do claustro dos meus lábios
fugiram as palavras que eram minhas:
fiquei sem os rosários
que costumava usar para rezar-me.

Abraçada aos meus ecos primordiais
quero dizer a música
do choro de um recém nascido,
o trovão que alucine a voz dos pássaros
e um gemido de amante
que cale a voz enorme do silêncio.

Às seis da tarde
no pórtico de todas as mordaças
só soa um Ángelus cantado por demônios.






















AO PÉ DO CALENDARIO

Volto-me para trás e contemplo, assombrada,
esse largo trajecto que recorri aos tropeços.
É tão longa e penosa a soma dos meus passos,
foi tão espesso o pó de cada encruzilhada.

Da mochila rasgada gotejaram as horas
e leve se tornou a carga de utopias,
perdidas as certezas, extraviados os credos,
olho com desconsolo minhas pobres pegadas.

Observam-me os que cruzam comigo nesta senda,
surpreendidos do mísero cariz dos meus andrajos,
nos cabelos carrego serpentes entrançadas
nas pontas dos meus dedos há garras e não unhas.

Ninguém busca os meus olhos onde moram os medos
nem procura o meu ombro onde não há refúgio,
sabem que não me resta mais que o lenho que arrasto
e o punhal escondido no viés dos meus seios.

Termina aqui o caminho. Aqui acaba a viagem.
Sento-me nesta pedra ao pé do calendário,
a alma ao rés do chão, esperando esse encontro
que combinei um dia com um velho demónio.




















ESTE DOMINGO

Este domingo sabe a morte antiga.
O vento se perdeu nalgum atalho,
esta tarde tem cara de inimiga
e me acena com gestos de espantalho.

Este domingo cheira a bruxaria.
No meu sótão mental mora um demônio
com síndrome servil de idolatria
que se alimenta de oração e amônio.

Salto na amarelinha dos pesares,
mastigando pedaços de vingança
enquanto a minha sede pede mares
e se afoga nuns tragos de esperança.




















GARE

Há que medir os suspiros.
Há que prever os lamentos.
Ao fim e ao cabo esta vida
é uma gare de andarilhos
onde aguardamos milagres
que chegam fora de tempo.

Enquanto espera o horário
do afeto com seus mistérios
a gente lustra os carris
com retalhos de argumentos
para dar brilho à esperança
que viaja em vagão aberto.

Porém o trem dos milagres
pode mudar de trajeto
e quando menos se espera
a gente fica tecendo
trilhos de teias de aranha
e a gare segue deserta.




















BALADA PARA NASCER TODOS OS DIAS

Nascerás outra vez esta manhã,
como ontem, como sempre.

Talvez estejas
cansada de nascer
tantas vezes, com tanta persistência.

Por isso se te inundam as calçadas
quando em todos os vasos
o vinho se derrama.

Há muitos compromissos por cumprir
nessa tarefa de nascer de novo:
há que aspergir incenso e libertar
os emigrantes pássaros da alma,
romper a névoa, navegar espelhos,
escalar muros, derrubar paredes,
pisar firme no chão e, com coragem,
medir a marca dos teus próprios passos.

Cumpre não esquecer de acender lâmpadas
para não tropeçar
nas pedras do caminho de nascer de novo.




















FORJAR SILENCIOS

Sobreviver -disso às vezes se fala-
mais além das estritas contingencias,
despida e sem pretérito,
desesencial.
Sem as amarras do esqueleto pobre
e da não transcendente
estratégia de ser.

Forjar silencios mais além da boca
onde todos os ecos se sepultan.
Sobreviver -disso às vezes se fala-
em absoluto estado de inocência,
sem punição.

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Ilustrações: óleos sobre tela, de Pablo Picasso

O ROMANCE DA MOURA













No ano 711 se produziu na Península Ibérica a primeira invasão dos muçulmanos procedentes da África do Norte. Nascia a cultura árabe-andaluza que durante os seis séculos seguintes desenvolveu uma civilização marcada pelo progresso econômico e pelo esplendor cultural nas terras denominadas Al-Ándaluz e Al-Gharb. Durante essa época coexistiram pacificamente as comunidades islâmicas, cristãs e judias.

Em 1492 terminou o processo da reconquista da Espanha pelos Reis Católicos Fernando e Isabel e com ele a tolerância religiosa e cultural até então vigente.

Em 1502 os Reis Católicos promulgaram uma “pragmática de conversão forçada” que estabelecia a conversão compulsiva dos muçulmanos à religião católica. Chamaram-se mouriscos aos espanhóis muçulmanos forçados a batizar-se em conseqüência dessa lei. Os muçulmanos que não aceitaram a conversão foram perseguidos e expulsos do território espanhol. Um século mais tarde, em 1609 também foram expulsos os mouriscos.

Os romances que compõem este conjunto de poemas contam a historia dos amores entre uma moura ámma, de uma família de pequenos agricultores, forçada a converter-se à religião cristã, e um mouro jássa, de nobre família, que não se submeteu à Pragmática e se tornou foragido. A época é o início do século XVI. O local a cidade de Granada, capital do reino muçulmano durante a dinastia dos Nazarís.

O enredo está organizado em quatro períodos:

- a época anterior à promulgação da Pragmática (poemas I, II e III)

- o período seguinte à Pragmática, no qual o mouro se recusa a submeter-se à conversão compulsiva e a jovem é forçada a converter-se ao cristianismo (poemas IV e V)

- a fase em que o mouro se encontra foragido nos montes da Serra Nevada e vem a Granada para encontrar-se com a mourisca (poemas VI, VII e VIII)

- final (poemas IX e X)

Nota: “Romance” é o tipo não estrófico contemplado em versificação castelhana, cuja característica é a composição em versos octosílabos (que em versificação portuguesa levam o nome de heptassílabos), com rima assonante nos versos pares, ficando os versos impares soltos. No caso deste Romance foi empregada a rima assonante em e-o em todos os versos pares.
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I - A SAGA
Granada, 1502














Esta é a saga de Sahoud,
nobre jássa sarraceno
e a jovem ámma Marién
gentil mourisca do povo.
Era o reino de Granada.
Eram séculos pretéritos.

-Ai, mouro dos meus encantos!
-Ai, moura dos meus desvelos!

Em amores se enredavam,
paixões da alma e do peito,
enquanto que a sorte avara
com os fios dos seus enredos
os seus destinos tramava
por intrincados trajetos.

As botas cristãs pisaram
de La Alhambra os arabescos.

Mouros que sereis mouriscos;
mouriscos, sois estrangeiros;
pois não haverá no Reino
outra lei nem outro credo:
Há uma Espanha na terra
e só um Deus no firmamento.

-Moura, me tornei mourisca.
-Mouro nasci e permaneço.

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Jássa: aristocrata
Ámma: povo
La Alhambra: palácio dos reis nazarís em Granada

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II - A ROSA











Meus lábios que não te chamam
são selados em segredo,
não posso dizer teu nome
pois a lua está em ensejo,
seus olhos de prata em ânsias
por ver teu corpo, moreno.

Com uma rosa nos dentes,
no seu talo te mordendo.

Meu corpo que te reclama
na noite estende o seu leito
e te esperam meus fascínios
nos velhos umbrais do tempo,
ansiando pelo teu corpo
que sabe a menta e a deserto.

Com uma rosa na orelha
te escuto no som do vento.

Quando a lua me descubra
a enredar-te em meus bruxedos
e pôr-me em pontas de pés
para beijar teus cabelos...
Ai, que se ponha encarnada!
Ai, que morra de desejo!

Com uma rosa no ventre
minhas cadeiras maneio.
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III - A SOMBRA

















Minha sombra beija a tua
com boca de vinho espesso
enquanto esperam meus lábios
a mordida do teu beijo:
que deixe um travo de sangue
no caudal do meu desvelo.

Nas pregas da tua sombra
estão passeando os meus dedos.

Minha sombra no teu ombro
traça as linhas de um esteiro
para que não te extravies
quando busques o meu peito.
Te esperam meus impudores
pelas esquinas do vento.

Nas mãos ágeis da tua sombra
estão pulsando os meus seios.

Minha sombra deixa marcas
com sua língua de veneno
do teu pescoço ao teu ventre
num rio de gozo e segredo.
No mar da minha saliva
singra o teu corpo, moreno.

Nas ondas da tua sombra
estão dormindo os meus medos.
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IV – A TAÇA

















Me enfeitei com madressilvas
para esperar teu afeto,
modelei minha cintura
ao círculo dos teus dedos.
Enquanto isso sonhava
com tua pele de pêssego.

Me trazes gozos guardados
entre os gemidos do vento.

Húmida de inquietas pressas
minha boca não tem pejo,
língua de ave embriagada
busca em voraz esbracejo
aonde caibam os meus lábios
nos espaços do teu peito.

A noite, lençol de seda,
onde se deita o silêncio.

Tuas mãos são peregrinos
que recorrem meus trajetos;
com dentes de leão faminto
minha carne vais mordendo
e o manancial do teu sêmen
enche a taça do desejo.

Com a vassoura da aurora
as nuvens varrem o tempo.
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V - A PRAGMÁTICA














Moura, me tornei mourisca,
enteada de um deus alheio
e me dizem que é pecado
querer tanto como quero
a quem sustenta o Crescente
com punhos de sarraceno.

Me abraço nas oliveiras
em teus braços estremeço.

Só o teu corpo é sagrado
no igreja dos meus lamentos;
a oração a minha língua
ardendo em mel e veneno
te reza de cima abaixo,
te queima como um inferno.

Colhendo cachos de uvas
nos teus sonhos eu desperto.

Os jasmins na minha horta
se balançam num maneio
quando o teu potro de ânsias
cavalga sobre os meus ermos
e os gemidos do meu sangue
quebram a face do espelho.

O Genil nasce em teus olhos
e nesse teu rio navego.
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Genil: rio de Granada
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VI - O DESTINO














Levava meu desconsolo
a caminho dos vinhedos
quando ouvi o som de música
na voz de algum cancioneiro.
Quem cantava era um cigano
uma soleá de lamentos.

Uma cortina de ocasos
escondia o firmamento.

Diz-me, cigano de sangue,
o destino dos meus medos,
se na palma do meu mouro
e nas páginas do tempo
haverão escrito os fados
o caminho do desterro.

A noite estendeu seu manto
de cetim mágico e negro.

Diz-me que em nossa fortuna
a noite do aventureiro
não matará o esplendor
do Crescente sarraceno
e que o sol de Andaluzia
luzirá com brilho intenso.

Nas margens verdes do Darro
só se escutavam silêncios.
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Soleá: canto andaluz
Darro: rio de Granada

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VII - O SONHO












Da minha túnica branca
a noite fez um veleiro
destapando os meus quadris
revelando os meus segredos;
me despojou de vestidos
o perfume do limoeiro.

Resvalavam como peixes
teus olhos sobre os meus seios.

-Hhabibi a’oyonak maa’aya.
(escutava num arpejo
tua voz nos meus ouvidos).
Não me tocavam teus dedos
e ainda assim me estremecia
ao sopro do teu alento.

Deslizava no meu corpo
o caudal do teu desejo.

-Habibi, a’oyonak kifaya
Murmuravas em segredo
Eu te respondia em sonhos:
-Habibati és meu eleito.
A noite se desvelava
repetindo os nossos ecos.

Um milagre se escondia
no meu pátio de silêncios.
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Habibi: meu amor (o homem referindo-se à mulher)
habibi a’oyonak maa’aya: meus olhos estão contigo
habibi, a’oyonak kifaya: meu amor, isto me basta
habibati: meu amor (a mulher referindo-se ao homem)
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VII – O UMBRAL











Não traspasses esse umbral:
deste lado está o inferno
onde te danço descalça
sobre a ânsia dos meus lenhos,
em chamas vivas que lambem
e abrasam quando te penso.

Da tua mão até a minha
a noite estende o seu lenço.

Não atravesses os vidros
porque sangrarão meus medos
se as tuas mãos feiticeiras
destroçam meus amuletos.
Desliza em mim teu olhar
desde o saguão do desterro.

Da tua boca até a minha
um pássaro voou por perto.

Modela-me nesse instante
quando em teu olhar me vejo
para que more em teus olhos
assim como encantamento,
como a asa de uma pomba
presa nas cordas do tempo.

Entre o teu rio e os meus sulcos
dois abismos e um espelho.
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VIII – O PATIO

















Furtiva venho ao teu pátio
na ausência do cavaleiro
que vai pelo Mulhacén
como um paria bandoleiro
por não ceder suas crenças
a um rei e a um deus estrangeiros.

Posso sentir teu aroma
de tigre acossado e fero.

Para não deixar pegadas
no teu pátio de arabescos
venho descalça e pequena
enroupada em meus segredos
e até os gerânios se assustam
quando neles te rastreio.

Estão cheirando ao teu suor
as sementes do limoeiro.

Se me encontras semearás
com o teu brio sarraceno
no meu ventre um filho mouro
que me matará de medo
quando seguir os teus passos
de nômade y de guerreiro.

Ai, se não fosse mourisca!
Ai, se te quisesse menos!
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Mulhacén: montanha da Sierra Nevada, Granada
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IX - A FUGA PARA O MAGREB

















Serão, habibati, sempre,
teus braços meu barlavento;
teus passos minhas pegadas
seguirão até ao desterro;
teu peito será meu lar
e tua sombra o meu teto.

Adeus lua de Albaicín
que me invejavas os zelos.

Com a esperança no alforje
nosso fado seguiremos,
minha mão atada à tua,
teu filho em meu ventre levo
rumo ao Maghrib Al Aqsá
pátria dos nossos eméritos.

Adeus meu pátio andaluz
que cheira a flor de limoeiro.

Aonde sopra o Sirocco
haverão oásis amenos,
as tâmaras serão doces
com o sabor agareno
dos teus lábios de senhor
Quando dizes “sou teu servo”.

Parto chorando, Granada,
sei que nunca mais te vejo.
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Albaicín: bairro de Granada
Mahgrib Al Aqsá: deserto do Magreb
Sirocco: vento do deserto africano

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Ilustrações: óleos sobre tela, de Henri Matisse


















Foto de Granada desde o Albaicín, com vista do Palácio da Alhambra e a Sierra Nevada

LÁPIDES



















Foto de R. Jaurégui

MONÓLOGO DO MORTO

Esta manhã amanheci pretérito,
sem mãos para agarrar a vida diária,
sem pés que me conduzam para o mundo
nem pálpebras que abram as auroras.

Não tenho que ordenar cosmogonias.
Amanheci caótico e silente,
sem o dever de consagrar absurdos.

Aranhas tecem teias nos meus dias.
A morte é um relógio sem ponteiros.

Há um território exíguo em minhas vértebras
onde um fantasma construiu castelos.

Não vai o sangue apregoando urgências.
Não há a memória de ter sido amado.

Esta manhã amanheci sem alma.


ENCANTADO DE PÁSSAROS

Eu lhe chamava encantador de pássaros
porque na sua voz esvoaçavam pombas.
Havia ecos de ritual vudu
no dolorido jazz dos seus fonemas.

Chove sobre o sepulcro do encantador de pássaros.
As aves se acomodam nos seus ninhos
e alguns ciprestes verdes, quase negros,
movem-se como os dedos de um pianista
porque o vento, assobiando,
transita da sua lápida aos ciprestes
e retorna com som de reza e música.

Chove sobre o sepulcro e sobre o manicômio
onde os dementes rasgam seus vestidos,
quebram as unhas arranhando muros,
empapados de pranto e de impropérios
porque o vento, assobiando,
recorre o mausoléu da sua morte
e volta gotejando versos viúvos.

Fincada nos meus pés, diante desse sepulcro,
sob um céu de betume e aguaceiro
olho esta pedra que é tão só uma pedra
e cobre um homem que foi só um homem
enquanto o vento, assobiando,
recorre as minhas veias
e torna ao coração com um gemido.



















SÓ, EXILADO DO MUNDO

Sozinho, do outro lado de todos os umbrais.
Longe das tuas margens. Exilado do mundo.

Que escuro e silencioso o recanto em que dormes!

De cedro a tua cama, de terra o teu dossel,
as flores nas coroas murcham e se desfolham
enquanto a chuva encharca a gare do teu túmulo.

De pó e de cinza o rosto da memória
habita olhos cegos atrás de inermes pálpebras.

Não ressoam teus passos pelas sendas da horta,
já não é teu arado necessário ao centeio
nem verão os teus olhos o júbilo da espiga.

Que inútil transcendência te devolveu a morte!
















Paul Gauguin

A NEGRA

A morte me acompanha, comedida,
desde sempre ao meu lado e até ao fundo,
testemunhando o fado vagabundo
e a minha biografia mal vivida.

Contempla os meus amores com a vida,
meu coito masoquista com o mundo,
a demente mania em que me inundo
da ânsia de viver, descomedida.

Não é ciumenta, a Negra, aguarda inerme
para acolher-me em lápide musgosa
quando a vida desista de querer-me.

Espera que tropece a minha sorte
para afinal, alegre e jubilosa,
celebrar com o diabo a minha morte.

NÃO SEI QUEM CHORA

Toco o teu nome
feito de letra ausente e mau presságio.
Não sei quem chora dentro do silencio.

Teu hálito no cristal
inaugura neblinas.
Limpo o teu rosto
com dedos sujos do veneno dos meus lábios.

Toco na tua boca
onde os nós se desatam.
Não sei quem chora dentro desse espelho.

Poço de pesadelos mal sonhados,
cemitério de tumbas entreabertas,
onde se aninham pássaros perdidos
e um verso inacabado.
Não sei quem chora dentro do teu túmulo.



















FIAPOS DE JANEIRO

Cheguei à vida demasiado tarde.
Kerouack se foi,
Ginsberg se foi
Não há ninguém que nos leve pela mão
no caminho à margem do sistema.

Terminou o pós-guerra
nas esplanadas de Au Deux Magots;
já todos decidiram
que não gostam de Sartre;
jazem encarceradas nos museus
as ternas odaliscas de Matisse;
Camus tão falecido
habita com os deuses o verão em Tipasa.

Por não falar nos mortos
irremediáveis
daquela geração de vinte e sete.

Ficamos sós,
Tito Muñoz e eu
flutuando nalguns fiapos de Janeiro.


DEP

Navegamos em órbitas distintas
pelas rotas de um cosmos de lanternas.

Gravitas ao redor das utopias
perseguindo hieráticas esfinges;
eu habito uma escura nebulosa
com duendes loucos e vetustas sílfides.

Nossos itinerários não se cruzam,
a luz das tuas centelhas não me atinge:
um astro mais na sombra dos mistérios
aos quais se acostumaram meus eclipses.

Darão as doze em todos os relógios
e um dia alguém dirá que te extinguiste.
Escreverei: “descansa em paz, amigo”.
É o habitual. E seguirei, impassível,
acomodada aos danos e aos pesares,
sem ostentar a pena e o gesto triste.

É natural que as lâmpadas se apaguem,
as vozes calem e as aves emigrem.

Na verdade, faz tempo, falecido,
jazes nas minhas densas cicatrizes:
a ausência é uma tumba e o silêncio
é uma morte: a pior morte que existe.

Não saberão, ao ver-me indiferente,
seguindo a trajetória de uma elipse
quantos astros em mim se eclipsaram
naquela vez primeira que partiste.















Paul Cèzanne

ESQUINAS

Tropeço em tua morte nas esquinas,
ouço tua voz gelada em meus caminhos,
Insondável e atroz como um aviso
expressado em enigmas.

Anda um fantasma triste no meu pátio
afugentando as aves com os dedos.
O rumor, entre as folhas, dos seus gestos
assusta a voz dos pássaros.

Em tudo ao meu redor ouço o gemido
do som que me atará pelas costelas
e deixará um punhal feito de ausência
cravado entre os meus seios.


ANDORINHAS

Enfim morreste, assim, sem mais razão
que o fato de estar vivo
deixando viúva
e sem recinto público
a larga multidão dos nossos versos.

Resta o silêncio fúnebre enraizado
num pátio de limoeiros e glicínias
onde havia uma acácia e uma nogueira
e um ninho de andorinhas
que a cada madrugada
voavam rumo ao sul.

E as andorinhas regressavam sempre,
em busca dos pretéritos do tempo
e dos futuros grávidos de enigmas
que- ainda que elas não saibam-
não voltarão.