
A poeta conseguiu plasmar em versos de requintada fatura, sem excentricidades, com um léxico preciso e até com certo laconismo mas com uma força poética iniludível, seu pensamento e seu sentir sobre tudo aquilo que conforma a matéria dos problemas fundamentais do homem: o amor, o destino, a morte. Na obra de Tania Alegria encontramos o prazer do verso e a armonia de uma obra poética construida com talento e beleza. A poesia de uma dama.
Rafaela Pinto, poeta e escritora (Argentina)
LEGADO
Quando eu morrer
num recanto do sótão
acharão um baú velho de mogno
com o modesto saldo dos meus bens:
meu legado de trastes
isento de tributos.
Nunca guardei por mais de uma semana
cartas de amor,
postais marcando ausências,
números telefônicos,
fotografias.
Não acharão nenhum amor-perfeito
entre as vetustas páginas de um livro
nem guardanapos sujos de poemas.
No meio dos objetos já sem uso
está um par de sapatos de verniz
que levavam meus pés para encontrar-te
(ninguém há de notar que eram asas);
algumas joias falsas, reluzentes,
como os meus olhos sempre que eu te via;
roupas fora de moda
onde ninguém verá
– porque não são visíveis as lembranças –
no meu vestido a mancha dos teus braços.
SEMPRE QUE MORRO
Sempre que morro, morro de naufrágio:
uma ilusão maior, mais atrevida,
mergulho fundo e rouba a minha brida
a morte sem presságio.
Não me cabe o direito de sufrágio.
Encontra-me em geral desprevenida
quando chega, avarenta e travestida,
a sorte por seu ágio.
Por lapso ou negligência
me afogo ingénua e dócil, com confiança.
Usualmente pereço de inocência.
Sucumbo de esperança,
de ingratidão, de perda, de inclemência.
Algumas vezes morro por vingança.
DE ENCRUZILHADA
Estou como quem vai, mochila às costas,
como quem viesse e não chegasse nunca,
viajante de pretéritos momentos,
estou só de passagem,
estou de encruzilhada.
Deixo vestígios, ecos de penúrias,
meu sangue ainda escorre na calçada
e em cada esquina, sob a luz da rua,
há pocinhas de pranto mal chorado
que esqueci de beber na hora da partida.
Talvez me encontres – se procuras muito –
nalgum porto, num bar mal afamado,
onde aposto nos naipes que te esqueço
e perco sempre.
EU TE DIREI EM VERSOS
Eu te direi em versos porque consta que a prosa
exige todavias alheios aos Outonos
das ramagens que o vento desfolhou.
Eu te direi em versos que já fomos deuses.
Portávamos olhares luminosos,
tínhamos mãos abertas como cálices
onde cabia o vinho de outros vasos,
nossas palavras cúmplices e alegres
recorriam às cegas os trajetos
buscando madressilvas redentoras
que resgatassem muros
da sua solidão desamparada.
Eu te direi em versos que já fomos Nós.
Mas um dia partiste em um ocaso
onde se inauguravam os pretéritos
e eu ordenei ao clã dos meus fantasmas
que mantivesse abertos os caminhos
para que entrasse pelas minhas pálpebras
esse pó assassino de distâncias
que se eleva do chão
se a tua voz galopa nos crepúsculos.
VENHO MATAR-TE
Venho matar-te.
Tardei em decidir-me esses dois séculos
que passei recitando um solilóquio
diante do espelho.
Tenho olhos de cal de tanto odiar-te.
A pele escorregou sem credo que a firmasse.
Descarnada por dentro, abjeta, despojada,
a língua em fel diluída, desfeita em impropérios,
com a boca repleta de blasfêmias,
venho matar-te
empunhando, homicida,
este punhal de versos.
(De InVerso, Ed. Movimento, Crivella, AlegrePOA, Porto Alegre, RS, Brasil)
Quando eu morrer
num recanto do sótão
acharão um baú velho de mogno
com o modesto saldo dos meus bens:
meu legado de trastes
isento de tributos.
Nunca guardei por mais de uma semana
cartas de amor,
postais marcando ausências,
números telefônicos,
fotografias.
Não acharão nenhum amor-perfeito
entre as vetustas páginas de um livro
nem guardanapos sujos de poemas.
No meio dos objetos já sem uso
está um par de sapatos de verniz
que levavam meus pés para encontrar-te
(ninguém há de notar que eram asas);
algumas joias falsas, reluzentes,
como os meus olhos sempre que eu te via;
roupas fora de moda
onde ninguém verá
– porque não são visíveis as lembranças –
no meu vestido a mancha dos teus braços.
SEMPRE QUE MORRO
Sempre que morro, morro de naufrágio:
uma ilusão maior, mais atrevida,
mergulho fundo e rouba a minha brida
a morte sem presságio.
Não me cabe o direito de sufrágio.
Encontra-me em geral desprevenida
quando chega, avarenta e travestida,
a sorte por seu ágio.
Por lapso ou negligência
me afogo ingénua e dócil, com confiança.
Usualmente pereço de inocência.
Sucumbo de esperança,
de ingratidão, de perda, de inclemência.
Algumas vezes morro por vingança.
DE ENCRUZILHADA
Estou como quem vai, mochila às costas,
como quem viesse e não chegasse nunca,
viajante de pretéritos momentos,
estou só de passagem,
estou de encruzilhada.
Deixo vestígios, ecos de penúrias,
meu sangue ainda escorre na calçada
e em cada esquina, sob a luz da rua,
há pocinhas de pranto mal chorado
que esqueci de beber na hora da partida.
Talvez me encontres – se procuras muito –
nalgum porto, num bar mal afamado,
onde aposto nos naipes que te esqueço
e perco sempre.
EU TE DIREI EM VERSOS
Eu te direi em versos porque consta que a prosa
exige todavias alheios aos Outonos
das ramagens que o vento desfolhou.
Eu te direi em versos que já fomos deuses.
Portávamos olhares luminosos,
tínhamos mãos abertas como cálices
onde cabia o vinho de outros vasos,
nossas palavras cúmplices e alegres
recorriam às cegas os trajetos
buscando madressilvas redentoras
que resgatassem muros
da sua solidão desamparada.
Eu te direi em versos que já fomos Nós.
Mas um dia partiste em um ocaso
onde se inauguravam os pretéritos
e eu ordenei ao clã dos meus fantasmas
que mantivesse abertos os caminhos
para que entrasse pelas minhas pálpebras
esse pó assassino de distâncias
que se eleva do chão
se a tua voz galopa nos crepúsculos.
VENHO MATAR-TE
Venho matar-te.
Tardei em decidir-me esses dois séculos
que passei recitando um solilóquio
diante do espelho.
Tenho olhos de cal de tanto odiar-te.
A pele escorregou sem credo que a firmasse.
Descarnada por dentro, abjeta, despojada,
a língua em fel diluída, desfeita em impropérios,
com a boca repleta de blasfêmias,
venho matar-te
empunhando, homicida,
este punhal de versos.
(De InVerso, Ed. Movimento, Crivella, AlegrePOA, Porto Alegre, RS, Brasil)